Rodrigo Gossi
← Voltar ao blog

O que são sombras psicológicas? (E como fomos programados a vida inteira para não sermos felizes)

Podemos chamar de Sombra Psicológica, ou Inconsciente Pessoal, tudo aquilo que não está plenamente consciente em nossa mente e modo de pensar. É aquilo que está oculto, na "sombra" do nosso pensamento, escondido atrás da voz interior que tagarela incansavelmente em nossa mente todos os dias.

Todas as nossas ações, desejos e decisões são influenciados de forma direta por tudo aquilo que guardamos em nossa mente, quer tenhamos parado para refletir se aquilo é verdadeiro ou benéfico para nós, quer não.

Nosso cérebro, assim como uma máquina bem projetada, é designado para executar funções da forma mais otimizada possível. O mecanismo mais comum para isso é colocar diversos conceitos e modos de pensar em "background". Como não paramos para observá-los, simplesmente os assumimos como verdade absoluta.

Isso desencadeia uma série de questões que somos chamados a refletir e resolver. Desde a nossa infância, absorvemos o mundo ao nosso redor e o gravamos como a "forma correta" de viver, dada a nossa vulnerabilidade e dependência naquela fase.

Muitos de nós crescemos em lares onde o dinheiro era um problema, pois sempre ouvimos de nossos pais frases como: "dinheiro maldito", "sempre tenho que trabalhar muito para ter dinheiro" ou "dinheiro não dá em árvore". Anos depois, na vida adulta, ao conseguirmos um emprego e termos nosso próprio dinheiro, nos deparamos com uma situação paradoxal: não conseguimos guardar ou prosperar financeiramente.

Ora, como seria possível termos aquilo que odiamos? Como prosperar com aquilo que crescemos vendo como o vilão de nossa vida?

Claro, podemos conscientemente negar essa realidade, afirmando que gostaríamos de ter dinheiro e que fazemos de tudo para prosperar. Mas é exatamente aqui que chegamos ao primeiro ponto crucial sobre o modus operandi da máquina-cérebro-humano: a parte consciente (aquilo que pensamos) é resultante e consequentemente influenciada por tudo aquilo que temos como paradigma (aquilo que está subentendido no nosso modo de pensar). Ou seja, estas duas partes atuam de forma completamente dependente, embora sejamos convencidos no decorrer da vida de que são independentes, ou simplesmente desconheçamos a existência do inconsciente.

O inconsciente é o "depósito" em nossa mente onde ficam guardadas todas as coisas que não levamos à luz da nossa consciência: tudo o que acreditamos mas não nos damos conta, ou não aceitamos que acreditamos ou sentimos. É lá que repousam os sonhos de criança que abandonamos, ou os sentimentos que não foram devidamente processados e foram jogados no "quartinho escuro" da mente.

Neste momento, é fundamental entendermos que, mesmo sendo varridas para baixo do tapete, as emoções, sentimentos e crenças não deixam de existir e muito menos de ser reais. A partir do momento que integram o inconsciente, essas informações começam um processo silencioso e constante de tentar retornar ao consciente, pois somente deste modo podem nos integrar por completo.

A Conclusão (O Caminho para a Luz)

E é justamente nesse ponto que mora a chave para a (in)felicidade que experimentamos.

Se fomos programados a vida inteira para evitar a dor, para "não olhar para baixo do tapete" e para seguir roteiros que nos foram impostos, vivemos como marionetes de um passado que já não nos serve mais. A infelicidade, muitas vezes, não vem da falta de conquistas, mas do conflito interno entre o que desejamos conscientemente e o que acreditamos, no fundo, ser merecedores ou capazes de ter.

Mas há uma saída. E ela não está em forçar o pensamento positivo ou em repetir afirmações vazias. A verdadeira transformação acontece quando paramos de lutar contra a nossa sombra e começamos a integrá-la.

Para isso, precisamos de coragem para:

  1. Observar sem julgamento: Prestar atenção nos nossos gatilhos emocionais. O que nos causa raiva, medo ou inveja nos outros é, quase sempre, um reflexo da nossa própria sombra que não aceitamos.
  2. Questionar as crenças herdadas: Perguntar a si mesmo: "Essa crença sobre dinheiro, amor ou sucesso é realmente minha? Ou é um eco do que ouvi quando criança?"
  3. Dar voz ao silêncio: A voz interior tagarela nos distrai. É no silêncio da meditação, da escrita ou de uma caminhada solitária que a sombra sussurra suas verdades. Precisamos parar para ouvi-la.

A verdade é que não fomos programados para não sermos felizes; fomos programados para sermos previsíveis e seguros, segundo a visão limitada de quem nos criou. A felicidade autêntica, no entanto, exige que rompamos com essa previsibilidade. Exige que desliguemos o piloto automático e peguemos o volante da nossa própria existência.

Iluminar a sombra não é um ato de destruição, mas de compaixão. É reconhecer que todas as partes de nós, até as que escondemos, merecem ser vistas e acolhidas. Quando trazemos a sombra à luz, ela deixa de nos controlar e passa a nos fortalecer.

Afinal, a felicidade não está em não ter sombras, mas em dançar com elas sob a luz da nossa própria consciência.